Abril é reconhecido mundialmente como o mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma condição do neurodesenvolvimento que envolve diferentes formas de perceber, sentir e se relacionar com o mundo. Muito tem se falado sobre inclusão, diagnóstico precoce e intervenções, e isso é essencial. Mas hoje, eu gostaria de convidar você a ampliar esse olhar: por trás de cada criança atípica, existe uma família inteira sendo atravessada por desafios silenciosos. E, muitas vezes, uma mãe emocionalmente exausta tentando dar conta de tudo.
As chamadas famílias atípicas vivem uma rotina que foge do esperado. Consultas, terapias, adaptações, crises sensoriais, seletividade alimentar, dificuldades de comunicação, preconceitos velados… tudo isso vai se somando ao longo dos dias. Não é apenas sobre cuidar de uma criança — é sobre reorganizar a vida inteira em função das necessidades dela.
E nesse cenário, muitas mães acabam se tornando verdadeiras guerreiras invisíveis.
São mulheres que, além de exercerem a maternidade, assumem o papel de terapeutas, mediadoras, defensoras, pesquisadoras e, muitas vezes, as únicas responsáveis por sustentar emocionalmente a família. Elas aprendem sobre o autismo na prática, na dor, na tentativa e erro. Dormem pouco, se cobram muito e, frequentemente, se sentem sozinhas.
O desgaste emocional é real e profundo.
Ansiedade, culpa, sobrecarga, sensação de insuficiência e até sintomas de depressão fazem parte da vivência de muitas dessas mães. Existe uma pressão constante para “dar conta”, para “ser forte”, para “não desmoronar”. Mas pouco se fala sobre quem cuida de quem cuida.
É preciso romper com a romantização da força feminina que tudo suporta. Cuidar de uma criança com necessidades específicas exige rede de apoio, escuta, acolhimento e políticas públicas que realmente funcionem. Não basta olhar para a criança, é preciso olhar para o contexto em que ela está inserida.
Quando uma mãe está emocionalmente esgotada, toda a dinâmica familiar é impactada. E cuidar dessa mãe não é um luxo, é uma necessidade.
Acolher famílias atípicas é compreender que cada conquista, por menor que pareça, carrega uma história de esforço, resiliência e amor. É oferecer menos julgamento e mais empatia. É entender que nem sempre haverá respostas prontas, mas que a presença, a escuta e o respeito já fazem toda a diferença.
Neste mês de abril, que possamos ir além da conscientização e caminhar em direção à sensibilização. Que possamos enxergar não apenas o autismo, mas também as histórias que existem ao redor dele.
Porque por trás de cada criança atípica, existe uma mãe que, mesmo cansada, continua tentando todos os dias fazer o seu melhor.
E ela também precisa ser cuidada.
Alessandra Procópio Moreira
Neuropsicóloga CRP 08/41553
Especialista em Avaliação psicológica/neuropsicológica e
transtornos do Neurodesenvolvimento













