Nos últimos anos, tem crescido de forma significativa o número de adolescentes e adultos que se autodiagnosticam com transtornos psicológicos e neurodesenvolvimentais a partir de conteúdos consumidos nas redes sociais e na internet. Vídeos curtos, posts informativos e relatos pessoais passaram a ocupar um espaço que, embora possa contribuir para a conscientização em saúde mental, também traz riscos importantes quando utilizados como base para diagnósticos pessoais.
Plataformas digitais têm popularizado termos como TDAH, autismo, ansiedade, depressão e burnout. Muitas vezes, esses conteúdos descrevem sinais amplos e experiências comuns a grande parte da população, como dificuldade de concentração, cansaço, procrastinação, sensibilidade emocional ou sensação de inadequação. Ao se reconhecerem nesses relatos, muitas pessoas concluem, de forma precipitada, que possuem determinado transtorno.
O problema do autodiagnóstico não está no interesse em compreender a própria saúde mental, mas na ausência de critérios técnicos, análise contextual e avaliação profissional adequada. Sintomas psicológicos podem ter múltiplas causas: questões emocionais, estresse, sobrecarga, experiências traumáticas, contexto familiar, demandas sociais ou até condições médicas. Um mesmo comportamento pode ter significados completamente diferentes dependendo da história de vida e do funcionamento global do indivíduo.
Nesse cenário, a avaliação neuropsicológica torna-se fundamental. Diferentemente de testes online ou listas de sintomas encontradas na internet, a avaliação neuropsicológica é um processo clínico estruturado, realizado por profissional habilitado, que investiga de forma aprofundada o funcionamento cognitivo, emocional e comportamental da pessoa. Ela envolve entrevistas clínicas, análise da história de desenvolvimento, aplicação de instrumentos validados cientificamente, observação do comportamento e integração cuidadosa de todos os dados obtidos.
Outro ponto essencial é que o diagnóstico não se baseia apenas na presença de características isoladas, mas no impacto funcional desses aspectos na vida cotidiana, na persistência ao longo do tempo e na exclusão de outras hipóteses. Sem essa análise criteriosa, corre-se o risco de rotular experiências humanas comuns ou, ao contrário, de mascarar dificuldades reais que necessitam de acompanhamento adequado.
Além disso, o autodiagnóstico pode gerar consequências emocionais negativas, como aumento da ansiedade, sensação de incapacidade, estigmatização e até o uso inadequado de estratégias ou medicações sem orientação profissional. Em adolescentes, esse risco é ainda maior, considerando que o desenvolvimento cognitivo e emocional está em curso.
As redes sociais podem e devem ser usadas como ferramentas de informação e redução de preconceitos, mas não substituem o olhar clínico, ético e científico da Psicologia e da Neuropsicologia. Buscar ajuda profissional não invalida a vivência de quem sofre; ao contrário, é um passo importante para compreender com clareza o que está acontecendo e encontrar caminhos adequados de cuidado.
Em tempos de excesso de informação, torna-se cada vez mais necessário reforçar: identificação não é diagnóstico. A escuta qualificada, a avaliação responsável e o acompanhamento profissional continuam sendo pilares essenciais para a promoção da saúde mental.
Alessandra Procópio Moreira
Neuropsicóloga CRP 08/41553
Especialista em Avaliação psicológica/neuropsicológica e
transtornos do Neurodesenvolvimento
(46)92001-9598













