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quinta-feira,2 julho,2026
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Quando a boca tenta preencher o que a mente não conseguiu elaborar

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Você acende um cigarro para aliviar a ansiedade. Abre a geladeira sem sentir fome. Mastiga enquanto trabalha, dirige ou assiste televisão. Parece uma escolha. Mas será que é?

Há muito tempo, a medicina deixou de enxergar obesidade e tabagismo apenas como falta de disciplina. Hoje sabemos que genética, hormônios, ambiente, cultura e saúde mental participam dessa equação. A psicanálise acrescenta outra perspectiva: muitas vezes, a boca se transforma na porta de saída de emoções que nunca encontraram palavras.

Sigmund Freud descreveu a fase oral como o primeiro momento do desenvolvimento humano. É quando o bebê encontra alimento, conforto e segurança através da sucção. Se essa experiência deixa marcas importantes, algumas pessoas podem desenvolver, na vida adulta, uma necessidade inconsciente de buscar alívio pela boca. Nem sempre será comida. Pode ser cigarro, álcool, unhas, doces ou qualquer comportamento que ofereça uma recompensa rápida diante da angústia.

É importante esclarecer: ninguém desenvolve obesidade ou dependência de nicotina por causa de um único fator psicológico. Essas doenças são multifatoriais e possuem forte influência biológica. Mas reduzir tudo a “coma menos” ou “basta parar de fumar” é ignorar décadas de conhecimento sobre comportamento humano.

O resultado está diante de nós. A obesidade cresce em ritmo epidêmico e já afeta mais de um bilhão de pessoas no mundo. O tabagismo continua provocando milhões de mortes todos os anos. Ambos multiplicam o risco de infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e diversos tipos de câncer.

Na prática clínica, uma cena se repete: o paciente abandona o cigarro e ganha peso; emagrece, mas passa a beber mais; controla a alimentação e desenvolve outra compulsão. O objeto muda, mas a necessidade permanece. O vazio apenas troca de endereço.

Talvez por isso a prevenção cardiovascular precise ir além dos exames e dos medicamentos. Controlar colesterol, pressão arterial e glicemia salva vidas, mas compreender o sofrimento que leva alguém a buscar conforto na comida ou no cigarro também faz parte do tratamento.

A boca alimenta o corpo. Mas, muitas vezes, tenta alimentar aquilo que nenhuma refeição é capaz de saciar.

Acompanhamento e acolhimento médico é essencial no tratamento de hábitos nocivos e prevenção cardiovascular.