Os mais meigos diriam que, na infância, temos uma conexão plena com os animais, as músicas e a natureza. Talvez haja.
Quando menino, na Escola Municipal Professora Senhorinha Miranda Mendes (ufa, era sempre uma aventura escrever o nome da escola nas avaliações!), havia um parquinho, sabe? Gangorra, escorrega e areia. Alguns metros dali, bem próximo ao centro do espaço escolar, havia uma frondosa árvore, alta, altiva e de grosso tronco, com suas folhas verdejantes trazendo sombra nos dias em que o calor era lancinante.
As crianças são seres simples e aprendem muito cedo sobre a bondade, sobre cuidar da natureza e dos animais. Os adultos mais sutis ensinam que as árvores também nos entendem, (embora imóveis) e algumas dançantes nos embalos do vento. Eu, criança, sempre gostava desse aspecto místico que as árvores poderiam ter, ou outras plantas também.
Quando estava sozinho, me achegava àquela imensa árvore e a abraçava. Quando me sentia enfastiado ou solitário, de alguma maneira me revigorava. Companheiros de solidão, eu e a árvore, de cuja espécie eu nem sabia aliás, ainda não sei.
Mas toda valsa, por mais dançante e suave que seja, tem seu fim. Com dez anos, foi a última vez que vi minha antiga e pitoresca companheira. Eu iria para outro colégio, inevitavelmente, com o fim daquela etapa do ensino fundamental, e minha parceira ficaria por lá, esperando algum retorno da minha parte? Nunca saberei.
O tempo passa e esquecemos um pouco da pureza de quando crianças, do que antes significava tanto para nós, de quanto tudo era maravilhoso ou, pelo menos, parecia ser.
Agora eu já era grande e, numa dessas noites em que o sono é completo e se pode visualizar bem o sonho, eis que me ocorreu: passava pela frente da minha antiga escola e lá estava caída minha companheira. Não mais altiva, mas derrubada, morta. Acabava então nossa amizade, sem nenhuma despedida ou um último abraço.
Acordei com aquele pensamento na mente, mas achei que se tratava de alguma nostalgia barata, dessas de quando as emoções estão à flor da pele, e tratei de esquecer.
Dias depois, passei em frente à escola em que aprendi tanta coisa, inclusive a amar a natureza e seus seres, suas árvores. E lá estava, como em meu sonho: caída, com seu tronco imenso serrado. Viraria lenha, é certo…
Hoje não existe mais nem sequer o toco para lembrar que um dia aquele lugar era sombreado e que ali crianças eram felizes. Só existe na memória de quem se lembrar com carinho… Assim como a infância, grandiosa e eterna.
Fonte: Renato Baalbaki












